A MyT opera simultaneamente no Brasil e em Portugal. E essa experiência nos deu algo que nenhum manual de RH oferece: a visão real de como os dois mercados funcionam por dentro — suas dinâmicas, suas armadilhas, seus atalhos e suas diferenças invisíveis que se tornam muito visíveis quando uma contratação falha.

Este artigo é um guia prático para empresas que recrutam nos dois países — ou que contratam profissionais de um lado para atuar no outro.

A armadilha do idioma comum

O fato de Brasil e Portugal compartilharem o português cria uma falsa sensação de familiaridade. Na prática, as diferenças são profundas — e vão muito além do sotaque e do vocabulário.

Um profissional brasileiro habituado a ambientes de alta informalidade, tomada de decisão rápida e comunicação direta pode encontrar dificuldades reais em empresas portuguesas com estruturas mais hierárquicas, processos mais formais e um ritmo de decisão mais conservador. O inverso também é verdadeiro: profissionais portugueses que chegam ao Brasil frequentemente se surpreendem com a velocidade, a ambiguidade e a necessidade constante de improvisar.

"Falar a mesma língua não significa pensar da mesma forma. No recrutamento cross-border, o idioma é apenas a entrada — o verdadeiro trabalho começa depois."

Diferenças culturais que impactam o processo seletivo

Nas entrevistas, as diferenças se manifestam de formas concretas:

  • Autoafirmação vs. modéstia: candidatos brasileiros tendem a se vender com mais entusiasmo e assertividade. Candidatos portugueses costumam ser mais contidos na autopromoção — o que pode ser interpretado erroneamente como falta de ambição por recrutadores habituados ao perfil brasileiro.
  • Relação com hierarquia: no mercado português, é mais comum o respeito explícito à estrutura hierárquica durante a entrevista. No Brasil, especialmente em empresas de tecnologia e startups, a informalidade com o entrevistador é bem-vinda e esperada.
  • Expectativa salarial: os parâmetros são completamente diferentes. Um salário considerado competitivo em Portugal pode parecer baixo para um profissional brasileiro que chegou com referências do mercado local — e vice-versa.
  • Prazo de resposta: processos seletivos em Portugal tendem a ser mais longos. Candidatos brasileiros acostumados com processos de 2–3 semanas podem interpretar um processo de 6–8 semanas como desinteresse.

O mercado de trabalho em Portugal: o que mudou nos últimos anos

Portugal passou por uma transformação significativa no mercado de trabalho na última década. A entrada de empresas de tecnologia internacionais (com destaque para Lisboa como hub europeu), o crescimento do setor de turismo e hospitalidade, e uma diáspora qualificada que retornou do exterior criaram um mercado mais dinâmico e competitivo.

Algumas características atuais do mercado português que impactam o recrutamento:

  • Escassez de perfis técnicos: desenvolvedores, engenheiros de dados e especialistas em cloud são disputados por empresas portuguesas, europeias e multinacionais — o que eleva a expectativa salarial e reduz a disponibilidade de candidatos passivos.
  • Presença crescente de brasileiros: uma parcela significativa da força de trabalho em tecnologia em Portugal já é composta por profissionais brasileiros. Isso cria tanto oportunidades (pool ampliado) quanto desafios (expectativas salariais divergentes).
  • Regulação trabalhista mais rígida: o Código do Trabalho português oferece proteções ao trabalhador mais amplas do que a CLT brasileira em alguns aspectos — especialmente no que diz respeito a dispensas e períodos de experiência.

Legislação: o que é diferente entre os dois países

Para empresas que contratam formalmente nos dois mercados, as diferenças legais são um ponto de atenção obrigatório:

  • Período de experiência: no Brasil, são 45 dias prorrogáveis por mais 45. Em Portugal, varia de 15 a 240 dias conforme o tipo de contrato e o cargo.
  • Aviso prévio: no Brasil, o cálculo é baseado no tempo de serviço (mínimo 30 dias). Em Portugal, o prazo mínimo é 15 dias para contratos de até 2 anos, aumentando progressivamente.
  • Férias: no Brasil, 30 dias corridos após 12 meses. Em Portugal, 22 dias úteis após o primeiro ano completo.
  • 13º salário e outros benefícios: o 13º salário brasileiro não tem equivalente direto em Portugal, onde existe o subsídio de Natal (equivalente a um mês de salário) e o subsídio de férias.

Para contratações cross-border — profissionais brasileiros trabalhando para empresas portuguesas ou vice-versa — é imprescindível consultar um advogado trabalhista especializado em direito internacional do trabalho.

O que permanece igual: o que toda boa contratação exige

Por mais diferentes que sejam os dois mercados, os fundamentos de uma boa contratação são universais:

  1. Clareza no briefing: o gestor precisa articular com precisão o que realmente importa naquele papel — não apenas o job description formal, mas o contexto, o time, os desafios reais e o que define sucesso nos primeiros 6 meses.
  2. Avaliação comportamental consistente: independentemente da nacionalidade do candidato, os padrões comportamentais relevantes para aquela posição são os mesmos. A metodologia de avaliação não muda — o que muda é a forma de interpretar certos comportamentos dentro do contexto cultural do candidato.
  3. Comunicação transparente ao longo do processo: candidatos em ambos os países valorizam processos claros, com feedback e timeline definidos. A falta de comunicação é a principal causa de abandono de processo em qualquer mercado.
  4. Onboarding estruturado: a integração cuidadosa é ainda mais crítica em contratações internacionais, onde o profissional enfrenta adaptação cultural além da adaptação organizacional.

Como a MyT navega esses dois mercados

A operação simultânea da MyT no Brasil e em Portugal não é apenas uma expansão geográfica — é uma vantagem metodológica. Temos profissionais com experiência real em ambos os mercados, entendemos as expectativas de cada lado e conseguimos calibrar processos, propostas e comunicações de acordo com o contexto cultural de cada candidato e empresa.

Para empresas portuguesas que querem contratar talentos brasileiros: entendemos as expectativas salariais, o perfil de comunicação e o processo de adaptação cultural. Para empresas brasileiras que buscam operar ou contratar em Portugal: conhecemos o mercado local, as regulações e os perfis disponíveis.

No recrutamento internacional, a vantagem competitiva não está em ter acesso a mais candidatos — está em ter profundidade suficiente para interpretar corretamente cada um deles.

Recrutamento Internacional

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Fontes e Referências

  1. IEFP — Instituto do Emprego e Formação Profissional. Boletim Mensal de Estatísticas do Mercado de Trabalho. Lisboa, 2024. Disponível em: iefp.pt
  2. SEF — Serviço de Estrangeiros e Fronteiras / AIMA. Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo. Lisboa, 2023 — Dados sobre presença de profissionais brasileiros em Portugal.
  3. Código do Trabalho Português. Lei n.º 7/2009, de 12 de fevereiro, com as alterações subsequentes. Disponível em: dre.pt
  4. Hofstede Insights. Country Comparison: Brazil vs. Portugal. Disponível em: hofstede-insights.com — Análise comparativa de dimensões culturais entre Brasil e Portugal.
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